Batendo perna por São Paulo a gente vê de tudo. Vê tanto, que nem a surpresa surpreende. No corredor da modernidade, também chamado de Avenida Paulista, o inusitado é o comum.
Lá também coisas feias acontecem, espancamentos surpresa, como o do dia 14 de novembro, feito por quem não sabe lidar com o próprio desejo. “Atitude infantil”, segundo a mãe de um dos menores agressores.
Lá também coisas tristes acontecem. Na Frei Caneca, um casal gay andava à minha frente de mãos dadas. Mas quando nos aproximamos da Paulista, os dois soltaram as mãos rapidamente, meio assustados, e continuaram andando de cabeça baixa.
Lá também coisas bonitas acontecem. Perto do Conjunto Nacional, em plena calçada, um gesto pacífico e visualmente comovente. Cartazes com mensagens pelos direitos humanos e velas acesas por cada vítima da intolerância. Meu filho, de quatro anos, quis sentar ali na calçada mesmo pra olhar de perto, ganhou uma vela e acendeu também. Me perguntou o que era aquilo.
– É pra lembrar que as pessoas não podem machucar as outras pessoas. Cada vela aqui é uma pessoa que foi machucada por alguém.
– Por que?
– Porque tem gente que fala assim: “Se você não gostar do que eu gosto eu te bato”.
Ele ficou pensando, com uma cara de quem não está acreditando na história absurda, depois concluiu, achando graça:
– Ah, a mamãe é maluca!
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